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sábado, 23 de fevereiro de 2008

A CIDADE




A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

José Afonso (02.08.1929-23.02.1987)


Como já tinha homenageado o Zeca por outras paragens não me quis repetir. Acontece que encontrei por aí este poema e não resisti, é um dos meus preferidos do Zeca.
Foto: Pode não ser grande coisa mas é minha.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

CANÇÃO DE EMBALAR


Olá meus amigos. A lista de éditos já é grande mas não podia deixar passar esta data em claro. Hoje Zeca Afonso faria 78 anos, por isso escolhi uma das minhas músicas preferidas daquele que foi o grande escritor de canções da música portuguesa.
Há também uma razão infantil na minha escolha...
Sempre adorei canções de embalar.

Canção de Embalar

Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p'ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor

Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu'inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

José Afonso
Cantares do Andarilho, 1968
Foto: Anne Guedes

Engraçado como em busca de uma imagem para este édito fui de novo parar às minhas origens blogosféricas.